“Capitu chamava-me às vezes bonito, mocetão, uma flor; outras pegava-me nas mãos para contar-me os dedos. E comecei a recordar esses e outros gestos e palavras, o prazer que sentia quando ela me passava as mãos pelos cabelos, dizendo que os achava lindíssimos. Eu, sem fazer o mesmo aos dela, dizia que os dela eram muito mais lindos que os meus. Então Capitu abanava a cabeça com uma grande expressão de desengano e melancolia, tanto mais de espantar quanto que tinha os cabelos realmente admiráveis; mas eu retorquia chamando-lhe maluca. Quando me perguntava se sonhara com ela na véspera, e eu dizia que não, ouvia-lhe contar que sonhara comigo, e eram aventuras extraordinárias, que subíamos ao Corcovado pelo ar, que dançávamos na lua ou então que os anjos vinham perguntar-nos pelos nomes, a fim de os dar a outros anjos que acabavam de nascer. Em todos esses sonhos andávamos unidinhos.”
— Machado de Assis, Dom Casmurro
(Source: c-o-r-a-l-i-n-a, via estanteazul)
”Você aparece e depois some.
E meu coração fica assim:
sem saber se abre ou se fecha,
se corre ou espera,
se chora ou se ri.”
- Mylena Proença
(Source: desafogamentos)
Ninguém se enxerga mais. Vivem a se arrastar feito fantasmas com olheiras encrustadas no rosto e mais adivinhações por trás de lágrimas. Os sentimentos se perpetuam, pesam mais de toneladas, como pesos amarrados ao tornozelo. Um pedaço de carne andarilho por ruas, um zumbi que se entristece com tão pouco e sorri por muito, -ainda que não exista um som que se ouça além do ronco. Sociedade que vive em torno do ócio é essa nossa. Rodeia num limite e é corrompida a acreditar, que pra viver, bem, tem que se igualar.
Digam-me qual é a sensação de se entupir com tanta alienação? e se deixar levar por ondas que só tem o objetivo de te afogar? As metáforas são rarefeitas perto daquilo que a realidade circunda. Bem sabe aqueles que reclamam de tudo, que fazem tudo, mas não sabem sequer o que estão vivendo.
E venham cá, o que estamos vivendo mesmo?
Paradigma é esse nosso, que mutila quem toma decisões e apoia a ignorância fabricada. Que arranca os olhos do cidadão, que pensa estar vivendo um pedaço d’algo, mentira! mal sabem, que realidade mesmo é essa ilusória que se deslancha em nossas mãos e teme ser descoberta por quem ousa pensar. Afinal, nunca se pareceu tanta idiotice como antes: correr atrás do mundo, sendo que ainda se permanece no mesmo lugar.
Sou dessas que acredita que inteligencia não é o principal, muito menos ser tolo em tentar ser esperto, nos dias de hoje é preciso saber viver no ócio e andar sonhando dentro de nós mesmos. Muito além do cansaço nas costas e o torneio diário que travamos entre nós mesmos. Pensar. Agora sim, podemos começar a conversar.
(via docecolibri)
“E me pergunto onde venho errando com quem amo e acredito que me ame também. Sim, devo estar cometendo erros horríveis pois a facilidade com que sou ferida é absurda. Até entendo ter parte da culpa e admito (mesmo sem saber o motivo ou errando sem ter a intenção), pois me permito muito e sei que cometo ‘pecados’ todo o tempo. Eu peco nas ações. Peco nas palavras. Peco nos pensamentos. Peco no olhar. Peco até ao dizer que amo. Mas qual a graça de acertar o tempo todo? Seria me relacionar pisando em ovos e isso me recuso a fazer. Se quero uma amigo comigo, um amor de verdade, preciso ser eu mesma, preciso errar e pedir desculpas, preciso não me limitar. E se um dia, eu me cansar de tudo e de todos, e se em outro, todos se cansarem de mim, que perdoem esses meus pecados, pois sou humana demais para ser santa.”
— Leca - 23/05/12
(Source: desafogamentos)
É mais um papel em branco que eu consumo ao perseguir, como uma sombra trêmula, a maldição do teu nome. É o vento fresco no deserto seco que sopra em baforadas o teu riso, como se nada fosse além de um floco de neve. E minto. É mais uma linha que fala desse meu ensejo que suplica um espaço no aperto da sua agenda. Três flores jogadas no canto da escada, fazendo barulho quando o silêncio rasteja na tinta desbotada. Você fala comigo com os olhos. Diz que não há nó ou nós nessas amarras que mordem as nossas mãos, mas perdeu-se me perdendo junto.
Falando sério, entre nós dois deveria haver mais sentimento.
Perdeu-se no céu noturno, nas fases da lua, nos amores tardios que nunca vieram, nos sonhos que não existiram, nas árvores que não receberam desejos, nos medos estranhos de quem arde em pavor quando a primeira gota de chuva toca o telhado. Levou-me nas vírgulas, nos papéis amassados, nos palcos enferrujados de dançarinos bêbados, nos carnavais de prazeres malditos que se apossam de cada célula do meu corpo. Na fumaça do fogo que incendeia de cores o breu do meu coração; mas eu acho que você não sabe de nada, nunca soube ler os meus botões, nunca soube vomitar essas dores que jorram dos cacos esparramados no assoalho da varanda. E penso em ir embora, porque…
Não quero teu amor por um momento.
Ouve o suplício no tom da melodia barata, sucumbindo quando me rendo aos aplausos dos palhaços que adornam a minha boca com um riso bruto e cru. E peço que me ame odiando cada milímetro da lágrima furtiva que escorrega e morre no meu queixo. Odiando cada centavo desse dinheiro que não tenho, e dessa sujeira que me consome quando não posso enxotá-la como a água que se esvai pelo ralo. Odiando cada parte do meu cântico escuro, do meu desejo em dormir com as luzes acesas, do meu medo estúpido de dizer que te amo e deixar todo o meu âmago em tua mão. Não aperta, não surra, não me mói. Odiando cada segundo que remexo o quadril e danço ao som do vento gelado, enquanto meu cabelo se espalha no ar febril do inverno. Faça a tua palavra ser um soco na cara, um balde de estrelas, um vale todo de flores e lindas mentiras, quando a verdade é um ultraje ao tempo que nos pôs em continentes errados.
… E ter a vida inteira para me arrepender.
Tenho a vida inteira para me castigar, amor… Mas, agora, eu só quero pisar na distância e ter a sua boca abrindo caminho por ilusões desconhecidas no terreno baldio da minha pele. Quero pisar no mundo e fazer a noite se calar para que o dia amanheça preguiçoso e não nos traga a despedida tão cedo. Quero pisar no sol e libertar o maior dos temporais, para que a estrada fique perigosa o bastante para não fazê-lo me pedir desculpa pelo adeus. Faz-me pagar por todos os meus pecados a cada segundo que os teus dentes soam como espadas ao atravessar as margens do meu pescoço. Faz-me, faz-nos. Constrói um mundo de solidão a dois no teto do nosso quarto, tijolo por tijolo, quando e se existir um lugar que possa ser chamado de nosso. Paro de respirar para escutar o silêncio entre a pedra atirada na janela e o som desesperado de pés açoitados, enquanto o telefone não toca e a música vai chegando ao fim.
Foi você que pisou no arame farpado e gritou o meu nome lá fora?
Camila M. Paiffer, falando sério.
(Source: blackroseslbl, via re-mar-amar)